Página Inicial
Página Inicial

Desformei-me

Rui TavaresTerminei minhas atividades no consultório, parei na porta, olhei para trás e vi 36 anos de atividade ininterrupta. Fui ao Templo Ecumênico da LBV, onde todas as energias se encontram, para agradecer a dádiva de uma vida profissional maravilhosa.

Venho amadurecendo minha aposentadoria há vários meses. Eu achava que tinha sido corajoso quando resolvi estudar na UnB, pois ao completar 18 anos, já estava aqui, morando longe dos meus pais. Corajoso tive de ser agora, lidando somente com as minhas decisões. Tenho que dar satisfação somente aos meus limites.

Tal qual a cigarra que se solta do arcabouço e sobe na árvore para cantar nesta época do início das chuvas em Brasília, sinto-me livre para fazer um voo aleatório, que poderá acabar no chão. Porém, essa consciência do risco também me obriga a ter humildade para escalar o tronco novamente, se preciso for.

Ao contrário da cigarra, não fiquei enterrado esses anos todos. A "estrutura médica" não me impediu de espernear, chiar e estrilar contra tudo aquilo com que não concordava na atividade médica. Não vedou meus olhos para enxergar o errado e admirar o belo. Não me tirou o prazer de conviver com as milhares de famílias que pude conhecer nestes anos de atividade profissional.

No entanto, para voar sem rumo não podemos ter carapaça. Para soltar o João Capelo Gaivota não pode existir cordão umbilical. Por estas e todas outras é que DESFORMEI-ME.

Desformar-se é sair da comodidade e da segurança. Quebrar o paradigma de que médico trabalha a vida toda até ficar velhinho. É não esquecer o que aprendi com a medicina, mas usar a sabedoria que pude acumular, nos cuidados aos pacientes, para fazer uma transição, sem traumas, para uma velhice proveitosa, produtiva e, fundamentalmente, feliz. É desvestir a "fantasia" do doutor. É ser calouro de uma nova vida.

Sentindo vontade de "pediatrar"? Vou ser voluntário. Vai ser ótimo.

Rui Tavares